Entre 20 e 31 de outubro de 2025, um aplicador de fora entrou em turmas de 5º ano, 9º ano e 3ª série do ensino médio de todas as escolas públicas do país, distribuiu cadernos lacrados e recolheu tudo no fim da aula. Essa prova é o Saeb, e o resultado dela saiu em agosto de 2026: as notas subiram em todas as etapas. Eu acho a notícia boa e acho também que ela diz menos do que as manchetes sugerem. As duas coisas cabem aqui.
Escrevo para o professor que ouviu falar do Saeb na reunião pedagógica, para o gestor que vai receber o boletim da escola e para quem estuda para dar aula e quer entender o número que vai perseguir a carreira inteira.
O que é o Saeb
O Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) é o conjunto de provas e questionários que o Inep aplica a cada dois anos para medir o que os alunos brasileiros aprenderam em língua portuguesa e matemática. Ele existe desde 1990, segundo o próprio Inep, e cobre a rede pública inteira nas etapas principais e uma amostra da rede privada.
Muita gente ainda chama a prova de Prova Brasil. O nome era da Anresc, a parte aplicada a todas as escolas públicas. Em 2019 o Inep aposentou as siglas e passou a chamar tudo de Saeb, como registra o histórico oficial da avaliação. Se alguém na escola fala em Prova Brasil, está falando do Saeb.
O Saeb também alimenta o Ideb, criado em 2007. A conta junta a nota média do Saeb com a taxa de aprovação do Censo Escolar, numa escala de 0 a 10. Escola que reprova muito perde pontos, mesmo com nota alta na prova. Escola que aprova todo mundo sem ensinar perde na outra ponta.
Como a prova funciona
Em 2025 a aplicação foi impressa e aconteceu de 20 a 31 de outubro, conforme a Portaria Inep nº 435/2025 citada nas perguntas frequentes do Inep. Quem aplica não é o professor da turma. A Fundação Cesgranrio contratou e treinou os aplicadores, e os cadernos voltaram lacrados para correção, como descreve o Guia Saeb 2025 da Secretaria da Educação do RS.
Quem faz o Saeb
O desenho muda conforme a etapa. A tabela abaixo segue o quadro publicado pela Secretaria de Educação de Mato Grosso do Sul a partir das diretrizes do Inep.
| Etapa | Provas | Rede pública | Rede privada |
|---|---|---|---|
| 2º ano EF | Português e matemática | Amostra | Amostra |
| 5º ano EF | Português e matemática | Todas as turmas | Amostra |
| 5º e 9º ano EF | Ciências da natureza e ciências humanas | Amostra | Amostra |
| 9º ano EF | Português e matemática | Todas as turmas | Amostra |
| 3ª/4ª série EM | Português e matemática | Todas as turmas | Amostra |
A correção usa a Teoria de Resposta ao Item, a mesma lógica do Enem. O peso de cada acerto depende da dificuldade da questão e da coerência do conjunto de respostas. Por isso a nota sai numa escala de proficiência (algo como 215 ou 256 pontos) e não em “acertou 14 de 20”.
Junto com a prova vêm questionários para aluno, professor, diretor e, desde 2025, para a família no 2º ano. Os professores do fundamental e do médio passaram a responder só pela internet. Eu daria mais atenção a esses questionários do que se costuma dar. São eles que permitem cruzar nota com condição de trabalho, e quase ninguém na escola os lê depois.
O que dizem os resultados do Saeb 2025
O Inep divulgou os números em 5 de agosto de 2026. Fizeram a prova 5,9 milhões de alunos, em 73.767 escolas e 247.744 turmas, segundo a nota dos resultados finais.
Na rede pública, todas as médias subiram entre 2023 e 2025. O maior salto foi no 5º ano em matemática: de 218,3 para 227,4 pontos. No ensino médio o avanço foi menor, de 263,9 para 268,0 em matemática.

O Ideb seguiu o mesmo caminho. Somando rede pública e privada, foi de 6,0 para 6,3 nos anos iniciais, de 5,0 para 5,3 nos anos finais e de 4,3 para 4,5 no ensino médio. Só na pública, os anos iniciais chegaram a 6,1. Segundo o Inep, são os maiores valores desde 2005, e todas as 27 unidades da Federação melhoraram nos anos iniciais.
O dado que mais me chamou a atenção foi outro. Em 2005, 4.110 municípios tinham Ideb abaixo de 4,9 nos anos iniciais. Em 2023 eram 1.097. Em 2025, 442. O MEC disse que vai acompanhar esses municípios de perto com assistência técnica.
O que os números não mostram
Média nacional subindo esconde muita coisa. Uma média de 268 no ensino médio pode conviver com uma escola onde metade dos alunos não resolve um problema de porcentagem. O Ideb também sofre com a matemática da própria fórmula, porque aprovar mais puxa o índice para cima mesmo quando a nota fica parada.
Há ainda o efeito comparação. O Saeb de 2021 ainda foi aplicado sob os efeitos da pandemia, e eu desconfio que parte da subida recente seja retomada. Isso não tira o mérito. Só não chamaria de virada histórica antes de ver 2027.
O que muda para a escola e para o professor
O professor do 5º ano costuma sentir o Saeb como uma prova sobre ele. Eu entendo o incômodo, só que a avaliação foi desenhada para olhar a rede e a escola, e o boletim chega na mão da gestão, sem nome de professor. O risco real fica em outro lugar: no simulado repetido em setembro e outubro, que tira semanas de aula para treinar o formato.
Treinar o formato ajuda pouco. O que move a proficiência é o aluno ler bem cedo, e isso começa lá atrás, no 1º e no 2º ano. Escrevi sobre o indicador Criança Alfabetizada, que usa a mesma escala do Saeb para medir o fim do 2º ano. Quem quer melhorar o 5º ano em 2027 precisa olhar para a turma que está no 2º ano agora.
O uso mais útil do Saeb dentro da escola é a conversa com dados na mão. O coordenador abre o resultado por escola no painel do Inep, compara com escolas parecidas do mesmo município e pergunta o que elas fazem de diferente. Quem quer se preparar para esse papel encontra base no curso gratuito de Coordenação Pedagógica do Portal IDEA, e quem está na direção pode ir pelo de Aperfeiçoamento em Gestão Escolar.
Para o aluno que ficou para trás, o caminho é recuperação contínua durante o ano, com reforço escolar planejado a partir do que ele ainda não sabe. Uma lista extra de exercícios na véspera da prova muda pouco, e a pesquisa sobre dever de casa mostra que volume sozinho rende menos do que se imagina nos anos iniciais.
O novo PNE e as metas que vêm aí
A mudança de política mais importante veio com a Lei 15.388/2026, o novo Plano Nacional de Educação, sancionado em abril. Ele troca o foco do Ideb pelo nível de aprendizagem. A meta 5.a pede que todos os alunos terminem os anos iniciais pelo menos no nível básico e que 70% cheguem ao nível adequado até o quinto ano de vigência. Para os anos finais a meta é 60% no adequado, e para o ensino médio, 50%. No fim da década, os alvos sobem para 90%, 85% e 80%.
O mesmo plano manda divulgar os resultados do Saeb a cada dois anos com recorte por nível socioeconômico, raça/cor, sexo, região e localização. Para a alfabetização, a meta é 80% das crianças alfabetizadas no fim do 2º ano em cinco anos, conforme o MEC.
Eu gosto da troca. “Nível adequado” obriga a dizer quantos alunos sabem o suficiente, e uma média alta não esconde mais uma cauda de alunos que não aprendeu. O lado difícil é que a meta é ambiciosa para o prazo, e o ensino médio, que subiu de 3 a 4 pontos em dois anos, mostra o tamanho da distância.
Se você ainda está na faculdade, vale ler isso como descrição do seu emprego futuro. Saeb, Ideb e metas de aprendizagem vão aparecer em concurso, em reunião e em plano de rede. Falei disso no texto sobre Pedagogia EAD depois do novo marco e no de metodologias ativas, que trata de como a aula muda quando o objetivo é aprendizagem medida.
Perguntas frequentes sobre o Saeb
O Saeb vale nota para o aluno?
Não. O aluno não recebe nota individual, e o resultado não entra no boletim nem conta para aprovação. A avaliação mede escolas, redes e o país.
Quando é o próximo Saeb?
O Saeb é bienal. Depois da edição de 2025, a próxima está prevista para 2027, com data definida em portaria do Inep.
Como ver o resultado do Saeb e do Ideb da minha escola?
No portal do Inep, pelo banner “Ideb e Saeb 2025”, na opção Ideb Resultados, escolhendo escola, rede, estado e município. O MEC publicou o passo a passo. O boletim detalhado fica no Sistema Saeb.
Escola particular faz o Saeb?
Só por amostra. A rede privada entra para que o retrato nacional fique completo, mas a escola particular não tem resultado próprio divulgado como a pública.
Um último ponto. O Saeb funciona como um termômetro bem calibrado, coisa rara no Brasil, e a série desde 2005 mostra que a escola pública melhorou. Vale usar o número para fazer perguntas sobre a própria escola. Usado como ranking para cobrar o professor do 5º ano, ele ensina a turma a fazer prova e deixa de lado o resto.