Notícias

Bullying na escola: o que os dados do IBGE mostram e o que funciona para reduzir

6 de novembro de 2026 | Artigos, Educação

Compartilhe:
Publicidade

Em 2019, 23% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos disseram ter se sentido humilhados por provocações de colegas duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores. O número vem da PeNSE 2019 do IBGE, a pesquisa mais completa que temos sobre bullying na escola no país. Eu leio esse percentual e penso na turma de 40: nove alunos, em média, passaram por isso no último mês. Não é caso isolado. É rotina.

Escrevo para o professor que ouviu “foi só brincadeira” na coordenação, para o coordenador que precisa decidir se chama a família e para quem estuda pedagogia e ainda acha que bullying se resolve com uma palestra no Dia Nacional de Combate ao Bullying.

Grupo de alunos e professores de escolas públicas municipais em desfile cívico em Coronel Fabriciano, Minas Gerais
Alunos de escolas públicas municipais em Coronel Fabriciano (MG). Foto: HVL/Wikimedia Commons, CC BY 3.0.

O que os dados da PeNSE mostram

A PeNSE entrevistou escolares do 7º ano ao 3º ano do ensino médio e representa um universo de 11,8 milhões de adolescentes. O indicador de bullying pergunta se o aluno se sentiu humilhado por provocações de colegas duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores. O recorte importa: não é “já sofreu alguma vez na vida”. É frequência recente.

As meninas aparecem mais como vítimas (26,5%) do que os meninos (19,5%). Já na prática do bullying, a proporção se inverte: 14,6% dos meninos e 9,5% das meninas disseram ter esculachado, zombado ou intimidado algum colega no mesmo período. No total, 12% admitiram ter protagonizado bullying.

Os motivos mais citados foram aparência do corpo (16,5%), aparência do rosto (11,6%) e cor ou raça (4,6%), segundo o mesmo release do IBGE. Corpo e rosto juntos mostram o peso da imagem. Cor ou raça lembra que parte do bullying é racismo vestido de “provocação”.

Gráfico de barras da PeNSE 2019: 23% sofreram bullying, 26,5% das meninas e 19,5% dos meninos; 12% praticaram; 13,2% sofreram ofensas online
Prevalência de bullying e cyberbullying entre escolares de 13 a 17 anos. Fonte: IBGE, PeNSE 2019.

O cyberbullying também entrou na pesquisa. 13,2% dos escolares se sentiram ameaçados, ofendidos ou humilhados nas redes sociais ou em aplicativos nos 30 dias anteriores (16,2% das meninas e 10,2% dos meninos). A humilhação que começa no intervalo continua no grupo do WhatsApp depois da aula.

Outro detalhe da PeNSE que a escola costuma ignorar: quem pratica bullying também é aluno da casa. 12% admitiram ter esculachado ou intimidado colega. Tratar só a vítima e expulsar o agressor sem plano pedagógico empurra o problema para a próxima turma. Os programas com melhor desempenho na meta-análise trabalham os dois lados e o grupo que assiste.

Há um dado paralelo que eu não consigo ler sem frio na espinha: 21,4% dos escolares afirmaram sentir que a vida não valia a pena ser vivida (29,6% das meninas e 13% dos meninos). A PeNSE não atribui causalidade ao bullying, e eu também não vou inventar. Mas quem trabalha em escola sabe que humilhação repetida e sofrimento psíquico caminham juntos com frequência demais.

O que a pesquisa diz que funciona (e o que não funciona)

Em 2019, Hannah Gaffney, Maria Ttofi e David Farrington atualizaram a meta-análise de programas antibullying escolares. O artigo na revista Aggression and Violent Behavior reuniu 100 avaliações e estimou redução de cerca de 19% a 20% na prática de bullying e de 15% a 16% na vitimização (DOI 10.1016/j.avb.2018.07.001). A versão ampliada saiu em 2021 na Campbell Systematic Reviews, com odds ratio de 1,309 para redução da perpetração e 1,244 para a vitimização.

Efeito modesto, mas real. Em escola de 800 alunos, 15% a 20% a menos de casos muda a temperatura do pátio. O ponto é outro: o efeito aparece em programas sustentados, com várias frentes ao mesmo tempo (o que a literatura chama de abordagem whole-school). Regras claras, formação de professores, envolvimento da família, trabalho com espectadores e acompanhamento dos casos. Palestra única no auditório, cartaz na parede e “semana temática” sem continuidade quase não movem o número.

Eu já vi escola gastar a semana inteira de combate ao bullying e, na segunda seguinte, tratar o caso novo como briga de adolescente. O calendário comemorativo não substitui protocolo. A Lei 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática e pede capacitação, prevenção e assistência a vítimas e agressores. Em 2024, a Lei 14.811 reforçou a proteção da criança e do adolescente na escola e tipificou bullying e cyberbullying no Código Penal. Lei ajuda. Sozinha, não reduz o percentual da PeNSE.

Crianças e adolescentes de escola franciscana em Bacabal, Maranhão, cantando em coral com uniforme claro
Coral de escola franciscana em Bacabal (MA). Foto: Gerda Arendt/Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

O que dá para fazer na prática

O professor sozinho não resolve bullying estrutural. Ainda assim, a sala é onde o caso aparece primeiro. Eu apostaria em quatro movimentos concretos, sem esperar o plano municipal perfeito.

Primeiro: nomear. “Foi brincadeira” encerra a conversa cedo demais. Intimidação repetida, desequilíbrio de poder e intenção de humilhar já bastam para tratar como bullying, no sentido da Lei 13.185. Segundo: proteger a vítima sem expô-la no meio da turma. Separar, registrar, acompanhar. Expor o aluno humilhado na roda de conversa para “resolver na frente de todos” costuma piorar.

Terceiro: olhar o espectador. Grande parte da meta-análise aponta ganho quando a escola trabalha quem assiste em silêncio. Quarto: envolver a família com fato, não com sermão. Data, trecho do que aconteceu, o que a escola já fez e o que pede da casa. Quem quer base para essa conversa encontra material no curso gratuito de Bullying nas Escolas do Portal IDEA e no de Introdução em Psicologia da Educação.

Para a coordenação, o ganho está em protocolo escrito e treinado: quem registra, quem escuta a vítima, quando acionar conselho tutelar, como tratar cyberbullying que começou fora e estourou na escola. O curso de Coordenação Pedagógica e o de parceria entre família e escola ajudam a montar esse fluxo sem improvisar a cada denúncia.

Quando o motivo é cor ou raça, tratar só como “conflito de convivência” apaga o racismo. O curso gratuito sobre racismo no Portal IDEA existe justamente para quem precisa de vocabulário e enquadramento além do senso comum. E se a discussão na rede for sobre clima de aprendizagem, vale cruzar com o que já escrevi sobre metodologias ativas e sobre o mito dos estilos de aprendizagem: turma engajada e professor que observa bem reduz o espaço em que a humilhação passa batido.

Registro importa. Sem data, local, testemunhas e o que já foi feito, a escola recomeça do zero a cada denúncia. Uma planilha simples na coordenação (ou o sistema que a rede já usa) evita o “acho que já conversamos com essa família”. Para quem está se formando, o curso gratuito de Formação de Professores no Portal IDEA ajuda a enxergar convivência como parte do ofício, não como interrupção da aula de conteúdo.

Perguntas frequentes sobre bullying na escola

Qual a diferença entre bullying e brincadeira de mau gosto?

A Lei 13.185/2015 fala em ato intencional e repetitivo, sem motivação evidente, em relação de desequilíbrio de poder, que causa dor ou angústia. Uma provocação pontual entre iguais pode ser conflito. Humilhação sistemática de quem não consegue reagir na mesma medida é bullying.

O que a PeNSE mede exatamente?

A pergunta central captura quem se sentiu humilhado por provocações de colegas duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa, entre escolares de 13 a 17 anos. Há também item sobre ofensas em redes e aplicativos e sobre ter praticado bullying contra colega.

Palestra antibullying funciona?

Como ação isolada, a evidência é fraca. Os ganhos da meta-análise de Gaffney, Ttofi e Farrington aparecem em programas escolares contínuos, com várias componentes. Palestra pode abrir conversa; não substitui protocolo nem formação.

Bullying e cyberbullying são crime no Brasil?

Desde a Lei 14.811/2024, a intimidação sistemática (bullying) e a praticada por meio digital (cyberbullying) passaram a constar no Código Penal, com penas específicas quando a conduta não configurar crime mais grave. Crianças e adolescentes inimputáveis seguem o ECA; a tipificação pesa sobretudo para adultos e para a organização da resposta institucional.

O que o professor deve fazer no primeiro sinal?

Interromper a humilhação, acolher a vítima em privado, registrar o episódio e acionar a coordenação conforme o protocolo da escola. Evite mediara “na frente da turma” sem preparo. E não devolva o caso à vítima com a pergunta “o que você fez para provocar”.

Se a PeNSE voltar a campo nos próximos anos e o percentual cair, eu quero poder dizer que a escola pública brasileira fez o trabalho sujo: treinou gente, escreveu protocolo e acompanhou caso. Cartaz no corredor todo mundo sabe fazer.

Publicidade

Conhece alguém que precisa dessa vaga?

Envie para amigos e grupos. Uma mensagem pode mudar o ano de alguém.

CONTINUE NAVEGANDO

Mais concursos e seletivos abertos

PORTAL IDEA

Mais de 3 mil cursos gratuitos com certificado

Estude no seu ritmo para o concurso, para a prova de títulos ou para uma nova profissão. Certificados válidos em todo o Brasil.