Notícias

Pé-de-Meia funciona? O que os dados dizem sobre a evasão

4 de novembro de 2026 | Artigos, Educação

Compartilhe:
Publicidade

O Pé-de-Meia funciona? Minha resposta curta é: provavelmente sim, mas menos do que a propaganda sugere e mais do que os críticos admitem. O programa paga para o jovem de baixa renda continuar no ensino médio, e a evasão escolar caiu desde que ele começou. O problema é que ela já vinha caindo antes.

Separei o que dá para afirmar com os dados de hoje, o que ainda é estimativa e o que ninguém sabe. Escrevo pensando no professor que ouve falar do programa na sala dos professores e no pai que quer entender se aquilo muda alguma coisa.

O que é o Pé-de-Meia, em uma frase

O Pé-de-Meia é uma poupança federal para estudantes do ensino médio público inscritos no CadÚnico: o aluno recebe R$ 200 por mês se mantiver a frequência e R$ 1.000 por ano concluído, valor que fica guardado e só pode ser sacado ao terminar a etapa. Há ainda uma parcela extra para quem faz o Enem no último ano. Foi criado pela Lei 14.818/2024.

Segundo o TCU, somando tudo, um aluno pode chegar a R$ 9.200 ao longo do ensino médio. Para uma família pobre, é dinheiro que pesa.

O desenho tem uma lógica clara. A parcela mensal compete com o bico que o adolescente faria à tarde. A poupança final dá um motivo para aguentar até o terceiro ano, que é justamente onde muita gente desiste.

Por que a evasão no ensino médio é o alvo certo

O ensino médio é onde o Brasil perde gente. A taxa de abandono da etapa ficou acima de 6% durante boa parte da década passada, segundo a série do Inep compilada pelo Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação. Em 2024, só 71% dos jovens de 19 anos tinham concluído o ensino médio.

Quem sai quase nunca sai por preguiça. Sai porque precisa trabalhar, porque repetiu de ano e ficou velho para a turma, porque a escola não faz sentido. A bolsa ataca o primeiro motivo de frente e o terceiro só de lado.

Gráfico de linha da taxa de abandono no ensino médio no Brasil: 7,6% em 2014, 6,8% em 2015, 6,6% em 2016, 6,1% em 2017 e 2018, 4,7% em 2019, 2,3% em 2020, 5,0% em 2021, 5,7% em 2022, 3,3% em 2023 e 3,2% em 2024, ano em que começa o Pé-de-Meia
Taxa de abandono no ensino médio, Brasil, todas as redes. Fonte: Inep/Censo Escolar, elaboração Todos Pela Educação.

Olhe o gráfico com calma. O abandono caiu de 7,6% em 2014 para 4,7% em 2019. Despencou em 2020, quando a pandemia mudou as regras de aprovação, e subiu de novo para 5,7% em 2022. Em 2023, antes do Pé-de-Meia existir, já estava em 3,3%. Em 2024, primeiro ano do programa, ficou em 3,2%.

O que os dados oficiais mostram

O MEC comemora. Em março de 2026, o ministério divulgou que o abandono no ensino médio público caiu de 6,4% em 2022 para 3,6% em 2024, uma queda de 43%. O programa atendeu 5,6 milhões de estudantes desde a criação, 54% dos alunos do ensino médio público, com investimento de R$ 18,6 bilhões em 2024 e 2025.

Os dados de 2025 reforçam a tendência. O Inep informou que, entre 2022 e 2025, o abandono no ensino médio público caiu 61% e a taxa de não retorno (o aluno que para num ano e não volta no seguinte) caiu 28%. Pelas contas do instituto, se o não retorno tivesse ficado no nível de 2022, o país teria quase 250 mil estudantes a menos no ensino médio em 2025.

São números bons. Só que o próprio Inep, no mesmo texto, lista outras políticas do período: escola em tempo integral, conectividade, mudanças no Enem. Uma queda que começa em 2023 não pode ser creditada inteira a um programa que começou a pagar em 2024. Comparar “antes e depois” mostra que algo melhorou. Não mostra o quanto foi o Pé-de-Meia.

O que a melhor estimativa diz

Para separar o efeito do programa do resto, a pergunta certa é: quantos desses jovens teriam saído se não houvesse bolsa? A resposta mais cuidadosa que encontrei vem do Centro de Evidências da Educação Integral, parceria do Insper com os institutos Sonho Grande e Natura. Laura Abreu, Ricardo Paes de Barros, Samuel Franco e Laura Machado publicaram em 2026 o livro Bolsas de estudo e evasão: avaliação de impacto ex-ante.

Gráfico de barras: evasão acumulada no ensino médio entre jovens vulneráveis estimada em 26,4% sem o Pé-de-Meia e 19,9% com o programa, queda de 6,5 pontos, uma em cada quatro evasões evitadas
Estimativa ex-ante do Insper/CEEI para estudantes de famílias vulneráveis. Fonte: Abreu, Paes de Barros, Franco e Machado (2026).

A conta deles: entre jovens de famílias vulneráveis, a evasão acumulada nas três séries seria de 26,4% sem o programa e cai para 19,9% com ele, segundo o resumo publicado pela Folha. São 6,5 pontos a menos. Dito de outro jeito, de cada quatro jovens que sairiam da escola, um fica.

O efeito varia: no Ceará a redução estimada chega a 10 pontos, no Paraná fica em 4,4. Os autores calculam que bastaria um impacto de 2,5 pontos para o programa se pagar, e que os benefícios superam mais de duas vezes os custos. Também sugerem que pagar mais não traz ganho proporcional, e que concentrar uma fatia maior do dinheiro no terceiro ano poderia segurar mais gente.

Agora o limite, que os próprios autores deixam claro. Avaliação ex-ante é uma simulação: usa dados de antes do programa e o comportamento observado em bolsas parecidas para prever o efeito. É a melhor ferramenta disponível hoje, e ainda assim é previsão. A avaliação com dados observados só fica possível depois que uma geração completa passar pelos três anos.

As críticas que merecem resposta

A crítica mais séria até agora foi fiscal, e não pedagógica. Em janeiro de 2025, o TCU suspendeu R$ 6 bilhões do programa por entender que parte do dinheiro entrou no fundo que paga as bolsas sem passar pelo orçamento. Semanas depois, no Acórdão 297/2025, o tribunal liberou os pagamentos e deu prazo ao governo para regularizar a situação no Congresso. Esse ponto tem a ver com a forma de financiar o programa. Ele não diz nada sobre funcionar ou não.

A segunda crítica é a do custo. R$ 12 bilhões por ano é muito dinheiro. A resposta honesta depende da conta de custo-benefício do Insper, que considera a renda futura de quem conclui o ensino médio. Se a estimativa estiver certa, o programa se paga com folga. Se o efeito real for menor que 2,5 pontos, deixa de se pagar. Por isso a avaliação ex-post importa tanto.

A terceira é a que mais me interessa: bolsa segura o aluno na cadeira, mas não ensina. Um jovem que fica na escola sem aprender recebeu o dinheiro e saiu com um diploma fraco. O estudo do Insper diz isso com outras palavras: a bolsa funciona melhor quando a escola também faz sentido para o jovem, com acompanhamento individual e espaço para falar de futuro. Aqui o trabalho volta para a escola. Gestão, coordenação e aula boa continuam sendo a parte que nenhum depósito substitui. Escrevi sobre isso no texto sobre metodologias ativas: aluno presente e aluno pensando são coisas diferentes.

O que a escola pode fazer com isso

Se eu estivesse numa escola de ensino médio hoje, faria algumas coisas com o programa. Usaria a frequência que o Pé-de-Meia exige como alerta precoce: o aluno que começa a faltar está avisando que vai sair. Conversaria com o terceiro ano sobre o que fazer com a poupança, porque R$ 1.000 por ano acumulado pode virar curso, notebook ou reserva, e pouca gente com 17 anos sabe planejar isso. O Portal IDEA tem um curso gratuito de noções básicas em educação financeira que serve de ponto de partida para essa conversa.

E levaria a sério a orientação de carreira. O jovem fica quando enxerga para onde vai. O curso de orientação vocacional do Portal ajuda o professor que acabou virando conselheiro sem formação para isso. Para quem está na coordenação, o de aperfeiçoamento em gestão escolar trata de acompanhamento de indicadores como frequência e abandono.

Vale juntar isso a hábitos de estudo mais saudáveis. O post sobre pausas na rotina de estudos tem ideias simples para quem trabalha e estuda.

Minha leitura

O Pé-de-Meia tem a evidência a favor que um programa de dois anos consegue ter: tendência oficial boa, uma estimativa ex-ante séria e resultados de bolsas parecidas em outros países. Não tem ainda a prova definitiva, que só vem com a avaliação dos dados observados. Eu apostaria que funciona. Mas quem diz que o programa “derrubou a evasão pela metade” está pegando uma queda que começou antes dele e colocando inteira na conta da bolsa.

Eu prefiro o número menor e mais confiável: um em cada quatro jovens que sairiam, fica. Para a escola, a pergunta seguinte é o que esse jovem aprende enquanto está lá.

Perguntas frequentes sobre o Pé-de-Meia

O Pé-de-Meia funciona para reduzir a evasão escolar?

A melhor estimativa disponível, do Insper/CEEI, indica que o programa reduz a evasão acumulada no ensino médio de 26,4% para 19,9% entre jovens vulneráveis, ou seja, evita uma em cada quatro evasões. É uma estimativa ex-ante; a confirmação com dados observados ainda depende de uma geração completa.

Quanto o aluno recebe no Pé-de-Meia?

R$ 200 por mês com frequência mínima, R$ 1.000 por ano concluído com aprovação (depositados em poupança e liberados ao fim do ensino médio) e uma parcela extra por fazer o Enem no último ano. O total pode chegar a R$ 9.200, segundo o TCU.

Quem tem direito ao Pé-de-Meia?

Estudantes do ensino médio público, inclusive da EJA, de famílias inscritas no CadÚnico, conforme a Lei 14.818/2024. Não é preciso se inscrever: a escola envia os dados ao MEC, que cruza com os cadastros sociais.

A queda do abandono escolar é efeito do Pé-de-Meia?

Em parte. O abandono no ensino médio já vinha caindo antes de 2024, e o Inep cita outras políticas no mesmo período. Os dados oficiais mostram melhora; separar quanto dela vem do programa é o que a avaliação de impacto tenta fazer.

Por que o TCU bloqueou o Pé-de-Meia?

Em janeiro de 2025, o TCU suspendeu R$ 6 bilhões porque parte dos recursos entrou no fundo do programa sem passar pelo orçamento. Em fevereiro, liberou os pagamentos e deu prazo para o governo regularizar o financiamento no Congresso.

Publicidade

Conhece alguém que precisa dessa vaga?

Envie para amigos e grupos. Uma mensagem pode mudar o ano de alguém.

CONTINUE NAVEGANDO

Mais concursos e seletivos abertos

PORTAL IDEA

Mais de 3 mil cursos gratuitos com certificado

Estude no seu ritmo para o concurso, para a prova de títulos ou para uma nova profissão. Certificados válidos em todo o Brasil.