Os estilos de aprendizagem são uma das ideias mais populares da educação e uma das mais testadas. O resultado dos testes é desconfortável: ensinar cada aluno no seu “estilo” (visual, auditivo, cinestésico) não melhora o aprendizado. Ninguém conseguiu mostrar esse efeito em quase duas décadas de tentativas controladas.
Mesmo assim, a ideia continua em formação de professores, em planos de aula e em testes de internet. Escrevo para o professor que aprendeu isso na faculdade, como muita gente aprendeu, e quer saber o que a pesquisa diz e o que colocar no lugar.
O que são os estilos de aprendizagem
Estilos de aprendizagem são a ideia de que cada pessoa tem um modo preferido de receber informação (ver, ouvir, ler ou fazer) e aprende melhor quando o ensino combina com esse modo. O modelo mais conhecido é o VARK, que classifica as pessoas em visuais, auditivas, leitoras-escritoras e cinestésicas. Existem mais de 70 classificações diferentes, segundo a revisão de Coffield e colegas, de 2004, citada por Newton e Salvi (2020).
Repare que a ideia tem duas partes. A primeira, de que as pessoas têm preferências, é verdadeira: eu prefiro ler a ouvir um podcast, e talvez você prefira o contrário. A segunda, de que adaptar o ensino a essa preferência faz a pessoa aprender mais, é a que não se sustenta. O nome técnico dessa segunda parte é hipótese do encaixe (em inglês, meshing).
Como se testa se os estilos funcionam
Em 2008, os psicólogos Harold Pashler, Mark McDaniel, Doug Rohrer e Robert Bjork publicaram a revisão que virou referência no assunto, na revista Psychological Science in the Public Interest. Eles descreveram o único experimento capaz de provar a hipótese do encaixe: separar alunos “visuais” e “auditivos”, ensinar metade de cada grupo de forma visual e metade de forma auditiva, e aplicar a mesma prova.
Se os estilos funcionassem, os visuais iriam melhor com a aula visual e os auditivos com a aula auditiva. Os resultados se cruzariam. Pashler e colegas procuraram estudos com esse desenho e encontraram pouquíssimos. Os que existiam não mostravam o cruzamento, e alguns mostravam o contrário.
Depois deles, mais gente tentou. Beth Rogowsky, Barbara Calhoun e Paula Tallal testaram adultos com audiolivro e com texto escrito, num estudo de 2015 no Journal of Educational Psychology. A preferência declarada pelos participantes não previu quem entendia melhor em cada formato. Um estudo com estudantes de anatomia, de Husmann e O’Loughlin (2018), mostrou que a maioria nem estudava de acordo com o próprio estilo VARK, e quem estudava não tirava nota maior.
Quantos professores acreditam
Quase todos. A revisão sistemática de Philip Newton e Atharva Salvi, da Universidade de Swansea, reuniu 37 estudos com 15.405 educadores de 18 países. Em média ponderada, 89,1% concordaram que o aluno aprende melhor quando recebe a informação no seu estilo preferido. Entre futuros professores, ainda na formação, o número foi 95,4%. Os autores não encontraram sinal de queda ao longo dos anos.

No Brasil, o dado mais recente que encontrei é de 2026. Uma pesquisa publicada na BMC Medical Education ouviu 130 professores de uma rede federal de educação profissional, no Tocantins, com média de 16 anos de experiência. A crença nos estilos de aprendizagem foi o neuromito mais aceito do questionário: 87% marcaram a frase como correta.
Há duas ressalvas honestas. A maioria desses estudos usa amostras de conveniência, e Newton e Salvi notam que parte dos professores pode ter entendido a pergunta como “os alunos têm preferências”, o que é verdade. A outra ressalva é animadora: nos estudos que testaram uma intervenção explicando a evidência, a crença caiu em média 37%.
Por que o mito é tão difícil de largar
Eu entendo a resistência. A ideia é generosa: diz que todo aluno pode aprender, desde que a gente ache o jeito dele. Ela também parece confirmada pela experiência, porque todo professor já viu um aluno “acordar” quando a aula mudou de formato.
Só que o aluno que acorda com um vídeo ou com uma atividade prática geralmente acorda porque a aula ficou mais variada e mais concreta, não porque o formato combinou com o estilo dele. Variedade e concretude ajudam quase todo mundo. Há conteúdos que pedem um formato, independente de quem aprende: geografia pede mapa, música pede som, e ninguém aprende a nadar lendo.
O custo do mito é real, mesmo que pequeno em cada sala. Rotular uma criança como “cinestésica” pode fazê-la desistir de ler, e o professor gasta tempo montando três versões da mesma aula em vez de usar o que funciona.
O que funciona no lugar
A boa notícia é que a lista de alternativas com evidência forte é curta e barata. Em 2013, John Dunlosky e colegas avaliaram dez técnicas de estudo numa revisão longa na mesma revista de Pashler. Duas tiveram a nota máxima de utilidade: a prática de recuperação (testar a si mesmo, tentar lembrar sem olhar) e a prática espaçada (distribuir o estudo em vários dias em vez de concentrar tudo na véspera).
Também ajuda combinar palavra e imagem para todos os alunos, e não para os “visuais”. Um esquema bem feito ao lado da explicação oral ajuda a turma inteira. E ajudam as estratégias em que o aluno precisa processar a informação, que discuti no texto sobre metodologias ativas. O mesmo raciocínio aparece no post sobre letra cursiva: anotar à mão ajuda porque obriga a resumir, sem relação com estilo nenhum.
Se você quer revisar de onde vêm essas ideias e por que algumas pegaram, o curso gratuito de Introdução em Psicologia da Educação do Portal IDEA cobre as principais teorias. Para separar neurociência de neuromito, o de Noções Básicas de Neuropedagogia é um bom ponto de partida, e o de Teorias da Aprendizagem e a Gamificação ajuda a pensar atividades variadas sem cair em rótulo.
Eu não jogaria fora tudo o que veio com os estilos. Perguntar ao aluno como ele gosta de estudar continua sendo uma boa conversa. O erro está em transformar a resposta em diagnóstico. Preferência é gosto; aprendizagem se mede na prova da semana seguinte.
Perguntas frequentes sobre estilos de aprendizagem
Estilos de aprendizagem existem?
As pessoas têm preferências sobre como recebem informação, isso existe. O que não tem evidência é a ideia de que ensinar de acordo com essa preferência melhora o aprendizado. A revisão de Pashler e colegas (2008) e os experimentos seguintes não encontraram esse efeito.
O que é o modelo VARK?
É um questionário que classifica as pessoas como visuais, auditivas, leitoras-escritoras ou cinestésicas. É o modelo de estilos mais conhecido, entre mais de 70 classificações. Estudos com estudantes não mostraram que estudar de acordo com o resultado do VARK melhora as notas.
Quantos professores acreditam em estilos de aprendizagem?
Uma revisão de 37 estudos com 15.405 educadores de 18 países encontrou média de 89,1% de concordância. No Brasil, uma pesquisa de 2026 com 130 professores da rede federal de educação profissional encontrou 87%.
O que usar no lugar dos estilos de aprendizagem?
As técnicas com melhor evidência são a prática de recuperação (fazer testes e tentar lembrar sem consultar) e a prática espaçada (estudar em sessões distribuídas). Combinar explicação oral com esquemas visuais também ajuda todos os alunos.
Por que o mito dos estilos de aprendizagem faz mal?
Porque pode rotular alunos e fazê-los evitar atividades que “não são do seu estilo”, além de consumir tempo do professor com adaptações que não melhoram o resultado.